Tekoha Ocoy – São Miguel do Iguaçu

Cartografia Awa Guarani I, 2010.

Fátima nos leva até Sadi, pescador da região, antes disso foi agricultor e comerciante. Quando chegamos estava rodeado por três cães e colhia tomates-cereja, nos recebeu sorrindo. Comentou suas façanhas com peixes como Armado, Pacu, Bagre, Traíra, Curvina, Peixe Cachorro, Cará, Piabuçu, Surubi, Pintado, Tucunaré, Lambari, Tilápia, Palometa, Perna de Moça… Parece que algumas espécies tem reaparecido nos últimos tempos. Conhecemos algo de como a pesca acontece pela região. Em meio ao riso jurou sobre a veracidade de suas histórias, apesar de pescador.
Ainda fomos na casa de Arlindo, encontramos Maria Rosa, que apesar de viver a anos na região preferiu que voltássemos mais tarde para conversar com seu marido. Comentou que Arlindo saberia contar melhor sobre os acontecimentos da região.
Na tarde fomos com Tião, Fátima e Monique fomos à aldeia avá-guarani Tekoha Ocoy (Onde há cultura), localizada no distrito Santa Rosa do Ocoy, colônia de alemães – No posto de saúde um mapa desenhado em lápis de cor representava a mata e as suas moradas. Fomos recebidos pelo cacique Daniel que respondeu serenamente nossas perguntas. Para o cacique a cultura e a língua de um povo são suas maiores riquezas e por isso devem ser honradas, no entanto hoje dão prioridade para o ensino da língua portuguesa para depois aprenderem a escrita do Guarani. Com respeito ao alimento os guaranis socializam, o que um planta é compartilhado com os demais. Com o surgimento do lago visitar parentes e amigos do outro lado da margem ficou difícil, os encontros agora são esporádicos. Para ser cacique não há candidatura, a maioria decide que vai ser o cacique, se cumprir bem seu papel permanece cacique por tempo indeterminado, do contrário outra reunião é realizada com a finalidade de eleger outro cacique. A pessoa escolhida não recusa o cargo.
Ainda na aldeia conhecemos também Marcos, que nos levou até o bosque onde os avá-guarani pescam e descansam, nos mostrou algo do artesanato feito por eles, Fátima foi presenteada com uma tocha de taquara trançada com corda. A história dos Avá-guarani é sofrida, no momento passam por um surto de malária.

Cartografia Awa Guarani II, 2010.

Passar pela estrada da aldeia é bem peculiar, pois do lado esquerdo temos a mata, lugar que os Guarani vivem e preservam, já do lado direito a paisagem é a típica da região, o cultivo de soja, nesse caso realizado pelos alemães. Os alemães de Santa Rosa do Ocoy também preservam sua língua e seus costumes. O alemão é a língua corrente do distrito. Estar nessa estrada foi mesmo curioso – a hibridização das culturas indígena e colonial no Brasil contemporâneo da monocultura.
Tião ainda nos levou a diversos distritos da região de São Miguel, ora colônia de alemães, ora de italianos. Em recanto a imagem do Cristo que piscava. Debaixo das torres, ouvimos o som da energia.

Conteúdo originalmente publicado em 07/01/2010 no blog Trânsitos à margem do lago da extinta página web Rede Kuai Tema de Pontos de Cultura

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *